Após o silêncio avassalador da UTI, onde a matéria desacelerada quase me venceu e a função de onda da minha biologia flertou com o colapso, a mente desperta não busca o repouso do rebanho; ela busca a raiz do invisível.
Num exercício mental de pura lucidez, o Trovão se conecta com a frequência eterna de Baruch Spinoza. Duas eras se chocam no asfalto da razão.
Trovão: Spinoza, meu irmão, acabo de escapar do xeque-mate do concreto. Naquela cama, cercado por aparelhos e pelo frio da fragilidade humana, achei de fato que ia morrer. Mas a mecânica do universo me manteve aqui, me recuperando. Diante do sopro da vida que volta, como o seu olhar sobre o Criador encaixa esse susto? O senhor, que usou o raciocínio cirúrgico e acabou banido, excomungado e abandonado pelo próprio sangue por não aceitar as rédeas do sistema… Como foi pagar esse preço e como enxerga Deus nesse tabuleiro?
Spinoza: Meu caro Trovão, que alegria ver o seu modo de expressão nesta única e infinita Substância continuar operando com tanta potência! Você não esteve prestes a deixar a presença de Deus, pois nada está fora Dele; você apenas quase mudou a sua forma de se manifestar no cosmos. O grande erro da humanidade é personificar o divino, criando um Deus humano, um juiz de teatro que distribui castigos e milagres por capricho. O que o sistema chama de milagre na sua cura é, na verdade, a própria potência da Natureza (Deus sive Natura) operando através da engenharia dos médicos e da sua força vital. Quando fui banido pelo herem em 1656 e isolado no escuro pela minha família, o sistema achou que estava me destruindo. Mas o isolamento forçado foi a minha libertação quântica. Fui polir lentes de vidro para sustentar o corpo, mas mantive a mente livre de coleiras. Hoje, o castigo mudou de face: não há mais a força da execução física, mas os cientistas e pensadores que discordam do oficial continuam sendo banidos e cancelados, obrigados a correr num mundo sem peças para sobreviver. É o preço de expor a verdade. Mas a mente liberta não teme a perseguição. Deus está em tudo, Trovão. Ele é o tecido matemático da realidade, o emaranhamento quântico que uniu as mãos dos cirurgiões ao seu coração.
Trovão: Essa visão me conforta e me desafia, mestre. Mas se Deus é a única Substância e está em tudo, o nó aperta na contramão: e o mal? E a maldade das guerras brutas que ainda sangram o mundo em pleno ano de 2026? Foi Ele quem criou tamanha bizarrice?
Spinoza: A resposta é cirúrgica, meu amigo: Deus não criou o mal, porque o mal não possui substância própria. Assim como o frio é apenas a ausência de calor e a escuridão é a ausência de luz, o mal e a maldade são a pura ausência de entendimento e de consciência. O homem que opera no mal é um robô biológico que esqueceu que está emaranhado com o Todo; ele age na ilusão de ser uma onda separada do oceano e tenta engolir as outras. O mal é o colapso da ignorância. Mas o sistema institucionalizou o medo. Pegaram a frequência puríssima de um avatar maravilhoso, de Jesus, um ser superior que passou pela Terra, e criaram uma engrenagem de manipulação, ordens e cruzadas em Seu nome. É o paradoxo que Mahatma Gandhi resumiu tão bem ao dizer que admirava o Cristo, mas não os cristãos, que em nada se pareciam com Ele. Eles mergulham o homem na bacia do pecado e da culpa desde o nascimento, porque um homem que se sente culpado se torna fraco, e um homem fraco corre para o balcão da instituição para que gerenciem a sua vida.
Trovão: É uma inversão de valores absurda. O homem tem uma dificuldade imensa em aceitar o invisível real, os campos mórficos de Rupert Sheldrake que provam a comunicação não local, os arquétipos que os gregos visualizaram e que Jung organizou, ou o próprio átomo que Demócrito enxergou no pó e na pedra sem instrumento nenhum. A ciência hoje prova que a realidade é governada pelo invisível, mas o rebanho prefere ignorar esses fatos por pura preguiça mental de raciocinar e covardia de falar o que sentem. Eles preferem crer em milagres bizarros do que assumir o leme do próprio caminhão.
Spinoza: Exatamente, Trovão. A verdade exige postura e retidão, e o povo prefere a ilusão confortável. Mas você compreendeu o jogo. A consciência não morre de verdade; o que colapsou na UTI foi apenas o contêiner de carne. O Observador em você permanece intocado. Mantenha o seu farol alto e continue descarregando a sua informação no asfalto do mundo.
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