Antes mesmo de existir uma escolha ou de sabermos explicar o que se passa na nossa cabeça, algo nos chama. Às vezes é uma pessoa, uma ideia, uma fantasia ou uma simples curiosidade.
Antes mesmo de existir uma escolha consciente ou de sabermos explicar o que se passa dentro da nossa cabeça, algo nos chama.
Às vezes é uma pessoa. Às vezes, uma ideia, uma fantasia, uma imagem, uma lembrança ou simplesmente uma curiosidade que aparece do nada. O desejo nasce sem pedir licença e, na maioria das vezes, sem que a gente consiga colocar um nome exato nele.
E talvez seja justamente aí que começa uma das maiores confusões da experiência humana: acreditar que tudo aquilo que sentimos precisa imediatamente se transformar em alguma coisa que fazemos.
O grande problema da vida adulta é que fomos ensinados a confundir sentir com agir.
A cultura, a educação, a religião, a família e as próprias experiências de vida muitas vezes nos ensinaram que determinados desejos são aceitáveis, enquanto outros deveriam ser escondidos, negados ou reprimidos. Como consequência, muita gente passa a viver uma espécie de guerra particular contra a própria mente.
Sentiu algo? Culpa.
Pensou em alguma coisa? Culpa.
Teve uma fantasia? Culpa.
Sentiu curiosidade por algo diferente? Culpa.
Mas existe uma diferença fundamental entre sentir alguma coisa e decidir o que fazer com aquilo.
Sentir não é escolher.
Você pode sentir medo sem fugir. Pode sentir raiva sem agredir. Pode sentir ciúme sem controlar alguém. Pode sentir curiosidade sem precisar experimentar aquilo que despertou sua curiosidade.
Da mesma forma, uma fantasia não é necessariamente um projeto. Um pensamento não é necessariamente uma intenção. E um desejo não é uma ordem que precisa ser obedecida.
A mente humana produz possibilidades o tempo inteiro.
Ela imagina, compara, recorda, inventa, testa cenários e cria associações que nem sempre passam pelo nosso controle consciente. Algumas dessas ideias desaparecem em segundos. Outras permanecem. Algumas nos agradam. Outras nos incomodam. E algumas simplesmente nos deixam curiosos.
Isso não significa que exista alguma obrigação de transformar qualquer uma delas em comportamento.
O desejo pode ser entendido como uma informação sobre nós mesmos. Ele pode revelar uma curiosidade, uma necessidade emocional, uma lembrança, uma carência, uma busca por novidade ou simplesmente o funcionamento imprevisível da própria mente.
Mas informação não é ordem.
O desejo não é um comandante sentado dentro da nossa cabeça dizendo: \”Faça isso agora.\”
Nós podemos observar o desejo, tentar compreendê-lo e decidir conscientemente o que fazer com ele.
É justamente nesse espaço entre sentir e agir que existe uma das maiores manifestações da liberdade humana: a possibilidade de escolher.
Quando a pessoa acredita que precisa realizar tudo aquilo que sente, ela se torna escrava do próprio impulso. Mas quando acredita que precisa eliminar tudo aquilo que considera inadequado, também se torna prisioneira da própria repressão.
Liberdade não é fazer tudo.
Liberdade também não é negar tudo.
Liberdade é conseguir olhar para aquilo que existe dentro de nós sem precisar imediatamente fugir, obedecer ou se condenar.
Isso não significa transformar qualquer comportamento em algo aceitável. Existem limites, responsabilidades, consequências e, principalmente, respeito ao outro. Sentir alguma coisa não elimina a responsabilidade pelas escolhas que fazemos.
E talvez essa seja uma das distinções mais importantes da maturidade psicológica:
Eu não escolho tudo aquilo que sinto.
Mas posso escolher o que faço com aquilo que sinto.
Quando entendemos que fantasiar não é uma obrigação de realizar, que pensar não significa necessariamente desejar agir e que sentir não significa necessariamente escolher, a mente ganha espaço para respirar.
Em vez de perguntar apenas \”por que estou sentindo isso?\”, talvez possamos acrescentar uma pergunta ainda mais interessante:
\”O que isso está tentando me dizer?\”
Nem sempre encontraremos uma resposta imediata. E tudo bem.
A mente humana não é uma máquina com manual de instruções. Ela é uma mistura de memória, experiência, instinto, imaginação, aprendizado, emoções e circunstâncias.
Talvez alguns desejos desapareçam quando compreendidos. Talvez outros continuem existindo. O importante é que eles deixem de ser tratados automaticamente como ordens ou como crimes internos.
A verdadeira liberdade não está em sair fazendo tudo o que dá na telha.
Também não está em passar a vida esmagando aquilo que sentimos por medo do julgamento dos outros.
A verdadeira liberdade começa quando conseguimos olhar para dentro sem mentir para nós mesmos.
Observar.
Questionar.
Compreender.
E, depois, escolher.
Porque entre o desejo e o comportamento existe um espaço.
E é justamente nesse pequeno espaço que mora uma das coisas mais extraordinárias que temos: a consciência.
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